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Framboesa. O fruto que faz de Portugal a Califórnia da Europa

Alentejo e Algarve estão a captar cada vez mais investimento para a produção de framboesas. E há cada vez mais pessoas a rumarem a Sul para abraçarem o negócio. Em 2014, foi o segundo fruto mais exportado; este ano já rendeu 27 milhões de euros.

Na estrada que liga São Teotónio às praias da Zambujeira do Mar a azáfama de quem quer pôr os pés na areia contrasta com a de quem trabalha dia após dia nas várias quintas quase a paredes meias com a praia. As peles bronzeadas, cobertas de alto abaixo para proteger do sol, os sapatos enlameados e os chapéus de proteção não deixam margem para dúvidas: a exposição a um calor de 35 graus é a única coisa que têm em comum com os veraneantes.

Dizem-nos que chegámos à Califórnia da Europa, uma região onde o clima ameno, tanto no verão como no inverno, é temperado pela brisa do mar, fatores essenciais à produção da framboesa – o segundo fruto mais exportado por Portugal em 2014 e a nova atração alentejana e algarvia que está a chamar jovens e menos jovens para o campo. O apelido foi atribuído pela Driscoll”s, uma empresa norte-americana especializada na produção de pequenos frutos nascida, precisamente, na Califórnia, há mais de 140 anos. Foram eles que descobriram estas características na Costa Alentejana onde chegaram há mais de dez anos e hoje são os maiores incentivadores do negócio das berries em Portugal. Trabalham com alguns produtores isolados, mas a maior fatia da produção está na parceria com duas associações nacionais a Luso Morango (Costa Alentejana) e a Madre Frutas (Algarve) e movimentam quantidades incríveis de frutos vermelhos.

Eunice Assis e Manuel Lopes fazem parte da família Driscoll”s há dois anos. Ele ex-formador em Ferreira do Alentejo, ela ex-socióloga em Lisboa decidiram iniciar uma vida a dois e para o meio trouxeram um gosto em comum: a agricultura. Arrendaram um terreno perto da Zambujeira do Mar e dois anos depois da primeira cultura já contam várias toneladas de framboesa e mirtilo produzidos. “É preciso muito trabalho”, diz Eunice Assis, hoje sócia da Lopes e Assis, com Manuel. “Quem vem à espera que isto seja romântico, não é. Eu farto-me de dizer isto”. Já estava à espera de um trabalho mais braçal, mas com 23 hectares de terreno arenoso e 3,8 hectares cobertos com frutos, já não tem ilusões. É que “é preciso ter o olho e dar o exemplo”. “Isto não podia dar certo sem que colocássemos a mão na massa”, completa Manuel.

A framboesa é entre as pequenas bagas, a que permite um retorno mais rápido ao produtor e, em Portugal, é possível produzi-la durante todo o ano – uma vantagem face aos restantes países onde também há produção deste fruto.

Há quem diga, por isso, que é o grande novo negócio da agricultura em Portugal, e com margem para crescer.

“Tem havido uma grande aposta na produção de framboesas em especial no Alentejo e Algarve e há cada vez mais jovens a olharem para esta produção. Pessoas novas, a maior parte sem tradição na agricultura”, diz José Martino, especialista em pequenos frutos. Mas os investimentos iniciais são elevados e, estima o especialista, devem rondar os 125 mil euros de capital inicial para a cobertura de um hectare de framboesa.

Os apoios comunitários ajudam a dar os primeiros passos. A maior parte dos agricultores candidatam-se a projetos do PRODER, o programa estratégico de desenvolvimento rural que atribuiu no último quadro, 163 milhões de euros aos pequenos frutos, 21% dos fundos destinados ao Alentejo e Algarve.

Eunice e Manuel utilizaram esta ferramenta, tal como Nuno Silveira e Rui Rebelo de Andrade, outros recém produtores, que viram neste negócio um novo início de vida. Depois de vários anos em setores próximos da agricultura – sistemas de rega e agropecuária – voltaram-se, em 2012, para a produção de framboesa e, com o apoio da Driscoll”s, já levantaram as primeiras colheitas. Nas suas duas quintas, de dois hectares cada uma, a Alenbaga – nome da empresa – conseguiu colher mais de 20 toneladas de framboesa por hectare. “Superou as expectativas”, conta Nuno Silveira. “Uma das coisas que acho que ajudou ao sucesso é que seguimos tudo o que a Driscoll”s disse. Como não sabíamos seguimos e quando não há vícios as coisas correm melhor”, diz Rebelo de Andrade.

Ainda a dar os primeiros passos e com muitos hectares disponíveis pela frente, Eunice e Manuel fazem as contas à produção e, sem levantarem o pano à produtividade, recordam que já saíram da Quinta Lopes e Assis duas culturas de framboesa Maravilla, uma de framboesa Carmina e uma de mirtilos, a sua outra produção. “Estamos muito satisfeitos com as berries e com a Driscoll”s”, diz Eunice, confirmando que foi a aceitação e o acompanhamento da empresa norte-americana que deu a ajuda que precisavam.

O negócio da Driscoll”s é esse: fornece a espécie (a variedade da planta que já ensaiou e reconhece qualidade), acompanha os produtores através de técnicos que vão, pelo menos uma vez por semana a cada quinta, e tratam da comercialização e do transporte dos frutos. A empresa norte-americana tem também a responsabilidade de receber as berries dos produtores e de fazer testes aleatórios à sua qualidade.

Todas as framboesas de maior qualidade são para exportar. Falamos de mais de 95% do total de framboesa produzida em Portugal.

A produção assinada pela Driscoll”s não é excepção: “Infelizmente o mercado português é ainda incipiente no que toca ao consumo de framboesa e apenas 3% da nossa produção em Portugal é vendida a clientes nacionais, fundamentalmente uma das principais cadeiras de retalho alimentar”, confirma Nuno Madureira Simões, diretor de operações da Driscoll’s para a Europa do Sul, África e Médio Oriente.

O negócio desta multinacional é enorme: estima-se que a eseja responsável por cerca de 600 mil plantas de frutos vermelhos na Europa; em 2014, terá exportado só a partir de Portugal, à volta de 50 milhões de euros em berries; e na sua rede de produtores, consegue assegurar, 3500 postos de trabalho diretos.

A Luso Morango, da qual a Driscoll”s é parceira, e também acionista é um dos exemplos do crescimento que as berries têm tido nos últimos anos: a facturação era de cinco milhões de euros em 2005, o ano da sua criação, e no passado passado era já de 36,8 milhões de euros.

No conjunto de todas as produções nacionais, o negócio das framboesas é, sem dúvida o mais rentável. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que em 2014 foram produzidas de 5000 toneladas de framboesas em Portugal.

Alemanha, Bélgica, Holanda, França ou Reino Unido estão entre os melhores compradores deste fruto português e, no ano passado, a framboesa rendeu 65 milhões de euros ao País. Só nos primeiros cinco meses de 2015, a soma ia já em 27 milhões de euros de vendas ao estrangeiro. Recorde-se que um quilo de framboesa custa entre 8 e 9 euros no Inverno e 5 e 6 euros no Verão, segundo o Quadro de Produção Vegetal da DRAP Algarve.

É precisamente a Sul do País, perto de Olhão que encontramos a segunda Associação de produtores parceira da Driscoll”s. Mas as diferenças face ao que encontrámos no Alentejo são imediatas : tudo é diferente, desde o aspecto dos túneis de abrigo que fazem crescer as plantas, ao solo onde crescem. Até o clima parece outro. Há uma outra diferença ainda mais notória: enquanto no Alentejo só agora se começa a abrandar o ritmo, a acalmia já chegou às quintas algarvias há mais de um mês.

Como o pico da produção ficou em maio,”agora é a chamada época sem stress onde há tempo para um mergulho ao fim do dia”.

Em maio, a Madre Fruta, que agrega 32 produtores, consegue fazer sair da sua sede seis camiões de framboesas por dia. São cerca de 300 toneladas deste fruto a serem entregues por semana. E a azáfama é outra: é que cada associado tem de entregar o fruto na sede até um máximo de duas horas da colheita. É ali que se arrumam as caixas e se arrefecem para uma temperatura de 3 graus para que possam viajar até ao cliente. Nesse período, o número de produtores associados chega a rondar as 3000 pessoas – só 600 são permanentes.

Para fazer face às necessidades, a Madrefruta estabeleceu uma parceria com o Instituto de Emprego, mas a necessidade é sempre superior à resposta que se consegue obter só em Portugal. “Ainda hoje temos uma reunião com o Centro de Emprego para programar a próxima campanha, onde vamos precisar de cerca de 3200 pessoas”, diz João Bento Inácio, um dos fundadores daquela Associação, afirmando que sem migrantes não há negócio.

O cenário repete-se no Alentejo. “A mão de obra, talvez seja o problema grande da área. Não é por falta porque vai-se buscar lá fora…aqui temos nepaleses, tailandeses, bangladesh…portugueses nada. Temos um português, mas daquilo que vemos aqui à volta, portugueses não há”, admite Rui Rebelo de Andrade. O diagnóstico sai de imediato: “As empresas pagam-lhes para trabalharem, o Estado paga-lhes para não trabalharem…Se me pagarem para não trabalhar eu também fico em casa”.

Nas duas quintas que a Driscoll”s tem em Odemira, a maioria dos funcionários também são emigrantes.

Têm, por isso, alojamentos preparados para os receberem, com quartos e balneários. No entanto também há quem prefira afastar-se do local de trabalho que já exige tantas horas de empenho e arrende quartos ou casas pela zona, mesmo que, por vezes, sob o olhar desconfiado dos locais. A deslocação entre quintas faz-se entre a bicicleta, a mota, ou o caminhar. Também os vimos, de raças e fisionomias tão diferentes.

Slavka é um dos exemplos dos que trabalham longe de casa. O português, bastante correcto para quem nasceu na Bulgária, mostra gosto pelo que faz: “Vim de um local onde não havia agricultura, mas comecei na apanha como os outros. É duro, são precisas muitas horas”. Hoje, Slavka já é supervisora de produção na Quinta das Taliscas, onde a Driscoll”s tem o seu campo de ensaios de espécies. Partilha o espaço com outros 36 trabalhadores tailandeses, homens e mulheres. Só a vimos a ela, estava à espera. Os restantes já se tinham recolhido depois de terminda a jornada às 16h00.

Saber quantas pessoas são precisas para um período de campanha que pode durar vários meses é mais fácil do que parece. É que apesar de não se conseguir parar o ponto de maturação da framboesa, os especialistas já conseguem quebrar o seu ciclo normal, deixar a planta a acumular energia, e programá-la para alturas de maior necessidade do mercado. “Temos de fazer uma contabilização diária para perceber quantas pessoas vamos precisar, quantas entregas vamos fazer”, confirma João Bento Inácio, admitindo que entre as estimativas e a realidade “as falhas são poucas”.

Há, no entanto, regras que são para cumprir à risca seja ou não pico de produção: cada framboesa só pode ser tocada duas vez – uma na apanha e outra quando o consumidor a vai comer. Tudo o resto afecta a qualidade do fruto.

 

Fontes: Lusa, AICEP, Dinheiro Vivo, INE e Driscoll”s

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